quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Healthy food

Diante do movimento epidêmico de consumo de alimentos light, diet, integrais e "naturais" impulsionado pelo endossamento midiático e, pasmem, médico, um duplo resgate histórico (o texto é de 1971, mas analisa uma situação dos séculos XVII e XVIII) involuntariamente sintetiza e destrincha com precisão este recorte da realidade atual:


"(...) O prazer dos primeiros capitalistas "não passa de bagatela, recreio, subordinado à produção, neste caso um prazer calculado e, portanto, econômico...". Portanto, na pessoa do capitalista, como personificação do capital, "o prazer submete-se ao capital, o indivíduo que usufrui àquele que capitaliza", e a fim de assegurar-se contra arrebatamentos descontrolados, ele compensa os seus ímpetos - moldados no cotidiano do escritório - com prazeres que se ajustam bastante bem à atividade burguesa: tabaco, café, mas sobretudo chá, que no século XVII conquistou rapidamente um mercado gigantesco. Nesse interim, o clero e a nobreza saboreavam chocolate e confeitos. Como o chocolate era uma mercadoria colonial valorizada pelos interesses católicos, pregava-se contra o tabaco e o chá, chamados nos púlpitos de "coisas do demônio"; em contrapartida, enaltecia-se o cacau como um remédio contra a peste e a cólera.

A arte burguesa festejou o café com cantatas, canções e poemas, e também o chá.
Quase sempre, contudo, era a Companhia das Índias Ocidentais que motivava e financiava a confecção desses ditirambos em homenagem aos chineses, a fim de ampliar sua venda. O chá é chamado então de "planta divina", comparado à ambrósia, e recomendava-se tomar de 40 a 50 xícaras por dia. Um médico holandês residente em Hamburgo prescreveu aos seus pacientes uma grande quantidade de chá, com o intuito de privá-los de ingerir bebidas alcoólicas, e suspeitou-se até mesmo de suborno por parte do comerciante de chá.

O médico holandês que, "no interesse das pessoas que padecem e dos comerciantes holandeses", implantou um estimulante e estupefaciente - o chá - como instrumento para abandonar o álcool agiu sintomaticamente a favor de sua classe. Em 1718, um médico parisiense defendeu na faculdade o princípio de que o café atua como medicamento contra a embriaguez oriunda da ingestão de álcool. Comerciantes haviam trazido para a Europa o café de Constantinopla, onde a "poção turca" subsituía o álcool, na época proibido. Os burgueses precisavam manter a lucidez, mesmo embriagados. Em 1652 foi inaugurada, em Londres, a primeira cafeteria. Cinquenta anos depois já havia lá, segundo Zetzner, mil cafeterias, nas quais vendiam-se também cachimbos. Aproximadamente na mesma época, Mandeville refer-se à grande importância econômica das mercadorias de luxo para as massas, citando, como exemplos, o café, o chá, o tabaco e o tecido vermelho-escarlate. A mania de imitação fez que as crianças e adolescentes "se acostumassem aos poucos a utilizar coisas que a princípio lhes eram indesejáveis, ou mesmo insuportáveis, até finalmente não conseguirem mais renunciar a elas... e quase sempre lamentarem muito por terem aumentado consideravelmente as suas necessidades vitais sem motivo. Consideremos o montante que se ganha com o chá e o café!". Consideremos também, prossegue o médico Mandeville, atenuando qualquer objeção moral, "o enorme comércio" e os "diversos trabalhos que sustentam milhares de famílias... graças apenas à existência de dois hábitos bobos, ou mesmo repugnantes - o rapé e o fumo - que prejudicam muitíssimo, mais do que ajudam a quem a eles se entrega". (...)"

- Haug, Wolfgang Fritz; Crítica da Estética da Mercadoria (Primeira parte, capítulo três: Galanteio amoroso, luxo da nobreza e êxtase burguês com lucidez; chocolate, chá, tabaco, café); Alemanha, 1971; São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.


Fascina-me tanto quanto preocupa-me quando percepções antigas elucidam o contemporâneo tão habilmente. Assim, torço fortemente por todas as saúdes dos novos saudáveis.

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