quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Uma semana assustadora

Na última terça-feira, um jovem de 20 anos foi assassinado pelo próprio pai, motivado por intolerância política - o universitário mostrava-se favorável às ocupações das escolas, entre outras causas, enfurecendo o patriarca. Nas redes sociais, a postura popular foi a mais repulsiva possível, embora previsível: predominaram a culpabilização da vítima e a comemoração da morte - "um comunista a menos!", talvez tenha sido pensado.

Certa vez, o escritor italiano Umberto Eco afirmou que as redes sociais deram voz e holofotes a uma "legião de imbecis". A declaração foi considerada equivocada por ser demasiadamente extrema; seu equívoco, porém, motivou-se justamente pelo contrário: Eco foi generoso ao chamar apenas de imbecis os que hoje se provam psicopatas enrustidos.

O sexto episódio da terceira temporada da Black Mirror expunha um instrumento que transformava em violência factual o ódio direcionado popularmente na internet, levando-me à assustadora consideração de que, se existisse de fato, este provavelmente seria utilizado. Agora, não me restam dúvidas.

Nesta tarde, se o ódio não foi concretizado em violência, sua coletivização, desta vez no plano real, justifica indignação semelhante: algumas dezenas de cidadãos -- digo: lunáticos, e assim os nomearia mesmo num texto objetivo -- invadiram a câmara dos deputados em Brasília clamando por intervenção militar e pelo fim do comunismo (!), afirmando oposição a "qualquer alternativa política".

Vozes inconstitucionais e antidemocráticas, aparentemente incapazes de reconhecerem seu próprio absurdo, e reflexo de um contemporâneo que, se dissolve rapidamente movimentos de pensamento, germina sementes cancerígenas com a mesma velocidade.

Um vídeo registrou um manifestante requerindo que o Brasil "fechasse e começasse de novo", ou algo do gênero; gosto de crer na prática metalinguística do sujeito: realmente, esta parece ser a única solução para as ondas intolerantes, ultraconservadoras e odiosas que ganham estofo e intensidade pelo território nacional.

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